A Rapariga Dinamarquesa: quando se dá visibilidade com uma mão e se tira com a outra

Shane Pereira, pessoa genderqueer e pansexual, é natural de Abrantes e estudou jornalismo no Instituto Politécnico de Tomar. Trabalhou no jornal i e colabora pontualmente com diferentes meios de comunicação. É ativista feminista e ambientalista, fazendo parte dos órgãos sociais da Ação Pela Identidade – API.


Sabemos que o nosso trabalho é recompensado quando acontecem coisas como a que aconteceu dia 17 de Dezembro, aquando do visionamento de imprensa do filme The Danish Girl, a ser comercializado em Portugal com o título “A Rapariga Dinamarquesa”. Ao chegar aos cinemas Alvaláxia, dei o nome e informei que vinha como representante da Ação Pela Identidade – API, para ter de resposta um sorridente “não sabia que vocês vinham, têm feito um bom trabalho!”.

Um aparte antes de começar a falar no filme propriamente dito. The Danish Girl é um filme feito por cis, para cis, e passa-se nos anos 20 – analisar este filme do ponto de vista trans é um bocado difícil. Até porque, apesar da película estar a ser comercializada como “a primeira pessoa trans dinamarquesa”, de acordo com a romance escrito por David Ebershoff tudo aponta de que Lili Elbe fosse não trans, mas sim a primeira pessoa intersexo submetida a cirurgia urogenital correctiva. Em The Danish Girl, este facto é subexplorado surge muito de relance apenas quando Lili, ainda como Einar Wegener, tem fortes hemorragias nasais e cólicas praticamente a título mensal.

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Lili Elbe em 1926

A verdade é que ainda se estão a dar pequenos passos na visibilidade trans no cinema e, sobretudo, em séries televisivas – e este filme, ao optar por apontar o foco a Lili como mulher trans, invisibiliza por completo a variação intersexo de Elbe. E ao optar por um homem cis – Eddie Redmayne, anteriormente oscarizado pelo papel em A Teoria de Tudo onde interpretou Stephen Hawking – essa invisibilização torna-se ainda mais marcada.

Chega a ser mesmo flagrante que Hollywood repita a proeza: Um homem able a interpretar uma pessoa com Esclerose Lateral Amiotrófica. O mesmo homem, cis, a interpretar uma pessoa intersexo – e novamente, um forte candidato aos Óscares. De sublinhar que a actriz Nicole Kidman fora inicialmente apontada para o papel de Lili Elbe. Não faria mais sentido?

Mais macabro ainda é o facto da enfermeira de Lili ser interpretada por Rebecca Root, uma actriz trans. Sendo Redmayne um de muitos actores em Hollywood a interpretar uma personagem não-cis, Root é provavelmente uma das primeiras actrizes trans no papel de uma personagem cis, ainda que por um minuto. Mais um ponto para a invisibilidade trans.

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Rebecca Root como enfermeira junto de Redmayne

Afinal, 2015 foi um ano de cis-hetero-branquização cinematrográfica. Vejamos os exemplos mais que debatidos de As Sufragistas e Stonewall, este último alvo de boicote por colocar um homem branco cis no lugar das mulheres trans e drag queens negras na frente dos protestos de Stonewall, branqueando por completo um dos marcos da história LGBT.

Shane Pereira

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  1. Sem querer, de todo, correr o risco de ofender alguém, parece-me que esta insistência em exigir que os papéis trans/intersexo/homosexuais sejam representados apenas por actores/actrizes trans/intersexo/homosexuais é uma falsa questão. Estamos a falar de uma indústria que se pauta pelo profissionalismo e pela qualidade das equipas que trabalham nela. Shakespeare não tinha actores negros a fazer de Otelo, nem mulheres a fazer de Ofélia ou Lady Macbeth, e isso não impediu de ser considerado o melhor dramaturgo da língua inglesa de todos os tempos — o que fazia, no século XVI tal como no XXI — era encontrar o melhor actor/actriz para o papel, baseado nas suas qualidades de representação, e não na sua identificação de género, na côr da sua pele, ou na sua orientação sexual.

    Independentemente da história da Rapariga Dinamarquesa ser muito ficcionada e historicamente pouco correcta ou não (agora os produtores já admitem que se trata de uma história romanceada baseada em factos reais, e não uma biografia), do ponto de vista da qualidade da peça cinematográfica (e não da perspectiva de uma promoção ideológica), o que é mais importante — ter como actor principal uma pessoa já galardoada com um Óscar e que possivelmente será nomeado para um segundo Óscar, ou um «célebre desconhecido», eventualmente com capacidade de representação inferior, mas que, por acaso, é física e psicologicamente mais parecido com a personagem que desempenha?

    Um bom actor é capaz de desempenhar qualquer papel, independentemente do seu género, cor da pele, orientação sexual, etc. Não vi ainda o filme, mas tenciono avaliar a representação de Redmayne pela sua capacidade enquanto actor, e avaliar o filme como um todo enquanto peça estética, e não enquanto um retrato fidedigno da vida de Lili Elbe (porque não o é).

    Não se trata aqui de um «documentário» sobre a vida de uma pessoa trans/intersexo, e muito menos de uma mensagem política, ideológica, ou activista, passada no grande écrã para chegar a um maior número de pessoas. Se fosse o caso, talvez fosse mais sensível ao argumento apresentado. Trata-se, isso sim, de uma obra artística, enquadrada no cinema, e que deve ser avaliada de acordo com padrões objectivos que são aplicados na crítica de arte, tendo em conta as condicionantes todas (o enquadramento de uma história romanceada baseada vagamente em factos da vida real de uma pessoa que existiu mesmo).

    Mais do que isso é estar a exigir coisas que não são exigíveis a um realizador de cinema como Tom Hooper. Espera-se dele, enquanto realizador de cinema mainstream, que faça um filme de acordo com os padrões estéticos da arte do cinema. Não se espera dele que seja activista LGBTQI+. Em certa medida — e isto será obviamente discutível — Hooper «simplifica» a questão para a tornar mais acessível ao público em geral, que, regra geral, não se sentirá motivado a assistir a um filme de propaganda LGBTQI+, mas que estará disponível para assistir a uma obra de arte, e de ser capaz de discutir a sua mensagem, o conteúdo, e as opções estéticas do realizador. Subliminarmente também se está a passar uma mensagem — «invisível», usando as suas palavras — o que deve ser encarado de forma positiva. O sucesso deste filme pode encorajar futuros realizadores a explorarem a temática em mais filmes mainstream — e por mais «invisível» que seja a mensagem, alguma coisa irá passar, por pouco que seja.

    De resto, considero a inclusão de Rebecca Root como bastante positiva, e nada de «macabro». Root não é uma actriz no mesmo patamar que Redmayne. No entanto, Hooper mostra assim que não tem qualquer problema em ter actores ou actrizes de qualquer género ou orientação sexual a desempenharem qualquer tipo de papel (mesmo que este não seja «consistente» com a sua identidade de género, orientação sexual, ou história pessoal) — desde que o façam de forma profissional! Não há absolutamente nada de «macabro» em usar actores cis para personagens trans, ou actrizes trans para personagens cis: isto é apenas um reconhecimento, por parte da direcção de actores, que essas pessoas são profissionais, capazes de desempenharem qualquer papel que lhes tenha sido atribuído da melhor forma possível. Root podia evidentemente ter negado o pequeno papel que Hooper lhe atribuíu na película, alegando que aceitá-lo iria contra a sua ideologia ou filosofia pessoal. Não o fez porque, julgo eu, Root quer-se estabelecer como actriz de pleno direito, independentemente da sua história pessoal, e mostrar à indústria que pode contracenar com os gigantes do cinema em igualdade de circunstâncias sem fazer má figura. Ou seja, Root aceitou um papel (por muito pequeno que seja) porque sabia que o iria desempenhar bem, enquanto actriz, e não enquanto pessoa trans.

    Podia-se também argumentar que Hooper, fazendo um filme sobre uma dinamarquesa, deveria ter escolhido apenas dinamarqueses como actores e actrizes. Evidentemente que não o fez; nem que seja porque não existe, de momento, nenhum actor ou actriz dinamarquês galardeado com óscares (pelo menos que eu saiba!) e que tenham uma qualidade de representação ao nível de Redmayne. No entanto, não vi ninguém na Dinamarca criticar Hooper por não usar actores e actrizes dinamarqueses. Redmayne é capaz de representar adequadamente uma personagem de um país diferente do seu sem suscitar qualquer tipo de discussão. Os dinamarqueses não se sentiram nem ofendidos, nem menosprezados, nem sequer «invisibilizados» ou «branqueados» por causa das opções de Hooper. Porque deveria a comunidade LGBTQI+ ter uma atitude diferente?

    No meu entender, insistir numa «discriminação positiva» na indústria do cinema é… uma forma de discriminação, que só prejudica quem participa nesse tipo de filmes, mas também prejudica a qualidade do filme em si e a sua disseminação e aceitação por parte do público. Queremos bons filmes com bons actores, que sejam capazes de desempenhar qualquer papel, por mais difícil que seja, da melhor forma possível, atraindo o maior número de pessoas às salas de cinema, e que garantam aos produtores um retorno do seu investimento. Se dessa forma se conseguir passar um bocadinho da mensagem da comunidade LGBTQI+ ao grande público, tanto melhor. Insistir na «discriminação positiva» — em que todos os actores ou actrizes que representam um papel de uma pessoa LGBTQI+ tenham de ser forçosamente também LGBTQI+ só resultaria (neste momento) num filme de qualidade inferior que passaria despercebido do grande público. O argumento de que também existem grandes actores e actrizes LGBTQI+ não é satisfatório: claro que existem, mas são poucos. O que é natural, pois a esmagadora maioria da população não é LGBTQI+. São necessários milhares, se não milhões, de maus actores/actrizes para que surja um(a) que se destaque dos restantes — isso é válido para todos os campos da arte. Não existem (ainda) milhões de actores/actrizes LGBTQI+. No futuro, quando estes existirem, surgirão naturalmente bons actores e actrizes LGBTQI+, e estes serão convidados a desempenhar papéis (não necessariamente papéis de personagens LGBTQI+!) nos filmes de grandes audiências; mas ainda não estamos nesse ponto! Aliás, incluir Rebecca Root no filme é um bom passo nesse sentido: Hooper mostra assim que existem, de facto boas actrizes LGBTQI+, capazes de desempenharem bons papéis, e só desejo à Rebecca Root que tenha mais convites para participar em mais filmes no futuro, graças ao seu desempenho (mesmo que muito limitado) na Rapariga Dinamarquesa. Nesse sentido, Hooper se calhar fez bem mais pela carreira de Root que muita gente, ao não ter qualquer problema em colocá-la a desempenhar um papel (mesmo que menor) no seu filme.

    Mas, como disse, não pretendo ofender ninguém, e aceito de bom grado que não concordem comigo neste ponto 🙂

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