Intervenção de SANTIAGO D’ALMEIDA FERREIRA

Intervenção de Santiago D’Almeida Ferreira, co-diretor da Ação Pela Identidade, na Audição Pública “Pessoas trans e intersexo: que reconhecimento e que novos direitos?”

Hoje, 5 de maio de 2015, apresento-me aqui não só em nome da Ação Pela Identidade, mas também de tudo aquilo que me representa. Toda a minha identidade é feita de sub-identidades e realidades que só a mim me cabe identificar, assumir, aceitar e acima de tudo defender. Estou verdadeiramente cansado de todos e todas que de alguma forma acham que podem perceber ou ter juízos de valor no que caracteriza a minha identidade. Da mesma forma que essas pessoas também têm a sua identidade e ninguém a pode retirar, também as pessoas trans e as pessoas intersexo são comuns. Nós somos comuns. Sem uma doença mental por representarmos a verdadeira diversidade humana. 
É verdade que nós questionamos todos os pilares da sociedade, e por isso mesmo temos que ser ouvidos primeiro, e na primeira pessoa, do que qualquer outro ser. É difícil perceber, largar e entender que a vida das pessoas apenas a elas pertence. E que elas podem falar e têm a sua voz. O que acontece muitas vezes é que pessoas que têm timbres de voz diferente, juntam-se a outras pessoas que têm esse timbre e querem julgar o timbre dos outros.
As pessoas trans e intersexo não são mitos. Não são pessoas sem voz. Não são pessoas sem cara. Elas existem e não podem ser ignoradas. E eu faço a pergunta retórica e, se calhar, um bocado provocadora: não acham que já chega? Não acham que já chega de quererem nos apagar quando fazemos parte da mesma sociedade? Quando nós temos os mesmos deveres, mas nunca os mesmo direitos? 
A interseccionalidade de cada um de nós é uma verdade máxima. Eu não consigo ser intersexo, sem ser homem, sem ser no final um homem intersexo negro. Que sofre racismo e estigma e que sabe que a maioria dos outros humanos vêem em mim uma raridade não normatizada a ser eliminada. Eu não posso ser eliminado por comprovar a diferença, nem na nossa sociedade, nem nas nossas características sexuais. Não posso compatuar com os que não não se apercebem quando é altura de recuar e deixar os próprios serem autodeterminados e livres. Nada disto é poder, nós não somos objetos, monopólios, nem peões. Porquê o medo de deixar que outro ser humano tenha as mesmas possibilidades que eu? Eu não sou tu, nem tu és eu. E esta é a reflexão que eu faço. 
Não é o poder é o empoderar. É o viver numa sociedade onde se dá espaço a cada realidade individual. E a todos os que uma vez na vida não considerarem essa diversidade, não ouvirem as pessoas que querem ser ouvidas, que as empurram para o fim da fila, que assumem coisas, que generalizaram as diferenças pela vossa própria e pela vossa norma, só demonstram egoismo. E eu, descaradamente, continuo a condenar isso. Eu não espero que gostem de todas as minhas palavras, que eu proferi agora, ou até de mim. Mas se continuam a não pensar ou a não respeitar a opressão cega que provocam, justificando-se com a vossa realidade em deterioramento da alheia, têm que parar. É desumano.
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