“NÃO PEDIMOS AUTORIZAÇÃO”: A Marcha do Orgulho Trans de Istambul sobreviveu

 

Istambul tem uma longa história de resistência trans. Desde 2009 que ativistas trans organizam na cidade a sua própria marcha, que reúne anualmente milhares de pessoas em Istiklal na maior ação de visibilidade trans em países muçulmanos, uma marcha cuja dimensão e impacto dificilmente são comparáveis a eventos da mesma natureza no ocidente.

Este ano, apesar da proibição anunciada pelo governador da cidade, dezenas de ativistas trans saíram à rua para a 7ª edição da Marcha do Orgulho Trans de Istambul.

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Ativistas/manifestantxs trans na Marcha Trans. 19 Junho 2016

Sob o pretexto da ‘segurança pública’, alegando preocupações com a ‘segurança dos nossos cidadãos e dos participantes’ no seguimento de ameaças feitas por grupos islamistas e ultra-nacionalistas, as autoridades baniram tanto a marcha trans como a marcha LGBTI+, que está marcada para dia 26 de junho. Organizadores da semana do orgulho responderam num comunicado publicado online: ‘o governador prefere limitar os direitos e liberdades das pessoas em vez de tomar medidas para lidar com as ameaças’.

A Marcha do Orgulho Trans de Istambul teve lugar sob forte repressão policial e estatal: o metro para Taksim foi cancelado e a polícia bloqueou as ruas que levam ao edifício da Istanbul LGBTI Solidarity Association, onde muites ativistas aguardavam já o inicio da marcha, rodeades de barricadas da polícia. Apesar das barricadas, es ativistas desfraldaram as suas bandeiras, gritando ‘não pedimos autorização, vamos marchar!’.

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Ativista/Manifestantx trans na Marcha Trans. 19 junho 2016

Além da violência policial (gás lacrimogéneo e balas revestidas de borrachas foram utilizadas, mulheres trans foram seguidas até casa e agredidas, e cerca de 17 pessoas foram detidas), es ativistas foram alvo de ataques violentos por parte de grupos fascistas, grupos islamistas e grupos ultra-nacionalistas que se organizaram em contra-manifestações para es assediar e agredir.

Sejamos honestes: olhos e ouvidos ocidentais estão dessensibilizados no que diz respeito a violência praticada contra corpos não-ocidentais, contra corpos de países muçulmanos. Décadas de media islamofóbica e xenófoba normalizaram a violência no Médio Oriente aos olhos do ocidente. Mas quando esses corpos são trans, em certos círculos da sociedade ocidental surge uma oportunidade: a de se dar ar de salvador. Enquanto se mantém o silêncio sobre a violência e repressão que as pessoas trans sofrem por aqui e nela se participa e dela se beneficia, aponta-se o dedo com pesar para o Médio Oriente, porque a islamofobia sobre a qual o ocidente constrói a sua identidade permite acreditar que o mal é o Islão, não a transfobia.

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Aparato Policial na Marcha do Orgulho Trans de Istambul 2016. 19 junho 2016

Qualquer estado que queira reprimir os direitos das pessoas trans irá apelar aos sectores conservadores da sociedade.

Qualquer estado que queira reprimir os direitos das pessoas trans irá apelar aos conservadorismo religioso.

Qualquer estado que queira reprimir os direitos das pessoas trans irá apelar ao ultra-nacionalismo.

Rex Timur,
Luso-turcx, activista trans não-binárix 

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