Demiguy e não-binárix, por Kay Cairns

Jovem jornalista, Kay Cairns já ganhou prémios pela sua tenacidade ao reportar temáticas impactantes sobre comunidades marginalizadas. Kay escreve para o Irish Idependent, Irish Examiner, Sunday Business Post, The Advocate e para o Gay Community News, com artigos sobre notícias e atualidades, saúde mental, viagens e políticas LGBTI.

Eu estou a ficar realmente frustradx por ter que explicar e defender a minha identidade de género ao mundo. E esta frustração vai ganhar forma nesta publicação.
Eu sou demiguy e não-binárix. Isto significa que eu não me identifico como homem, e que não me identifico como mulher. Eu expresso-me de uma forma tipicamente masculina – eu uso camisas e gravatas, calças e sapatos clássicos. Eu vou ao barbeiro, e tenho o cabelo curto atrás e dos lados.

Isto são tudo estereótipos para explicar a identidade de género, mas também porque esta é a forma como a sociedade explica o género, e isto é o que eu vos posso dar. Para ficar registado, eu também gosto de velas que cheiram a marshmallow e de vez em quando também gosto de pintar as minhas unhas.

Neste preciso momento, deves estar a pensar – porque é tu simplesmente não te identificas como homem ou mulher?
Se tudo são estereótipos, certamente que podes escolher um lado e quebrar as expectativas do que é ser homem ou mulher.

Sim, eu podia. Mas eu não me sinto confortável debaixo de nenhum desses rótulos. Se dependesse só de mim, não existiriam rótulos de homem ou mulher sequer. Mas, claramente, isso também não seria justo para as pessoas que se identificam com esses rótulos.

Eu frequentemente entro em debates online com outras pessoas. Essas pessoas ficam muito incomodadas por eu ter uma identidade tão restrita, e dizem-me que eu esculpi uma caixinha só para mim. E por esculpir essa caixa tão pequena, estou a restringir o que é ser homem e o que é ser mulher.
E que por me identificar como demiguy, eu estou – a longo prazo – a criar uma situação onde todas as pessoas que não se encaixam a 100% nos estereótipos de homem e mulher vão precisar dos seus próprios rótulos. Mais uma vez, nesse caso, vamos nos livrar dos rótulos de uma vez por todas. Porquê ter esses rótulos de homem e de mulher se não estão a funcionar connosco? Certamente que não funcionam comigo.

Estes rótulos têm os seus propósitos, ainda assim.

O meu rótulo, a minha identidade, pode funcionar como coordenadas. Como eu já disse, sou uma pessoa demiguy não-binária. Eu posso usar estes termos, estas coordenadas, para encontrar pessoas que se identificam de forma similar a mim, com necessidades e experiências similares.
Eu uso os pronomes “they”, como muitas pessoas não-binárias. Eu quero tomar uma dose pequena de testosterona para mudar a minha voz, como muitas outras pessoas demiguy.
As minhas experiências são únicas, mas também comuns o suficiente para que com o uso de um rótulo, ou de uma caixinha, consiga encontrar outras pessoas que se identificam como eu e têm experiências idênticas. Eu posso pesquisar no Google “demiguy” e encontrar um grupo no Facebook com mais pessoas a falar das dificuldades com as quais eu me identifico e também a partilhar recursos de que necessito. Este é o poder da tal caixinha.

De certa forma, é um bocado equivalente a um homem trans que usa o termo “homem trans” ao invés de usar apenas “homem”. Assim, isto permite-lhe procurar online por outros homens trans, e falar com eles sobre como encontrar hormonas e cirurgias, “coming out”, ou então sobre um monte de outras coisas de que ele precise.
Ou uma mulher trans, que usa este termo para encontrar outras mulheres trans que partilham a sua experiência. Ela até pode encontrar um grupo de apoio online para mulheres trans, que lhe permite falar, ter acesso a cirurgias e hormonas.

Quanto a este aspecto, nós, enquanto pessoas trans, temos experiências idênticas.
Nós estamos à procura de outras pessoas como nós.

No entanto, infelizmente, todos os ataques que recebo contra a minha identidade vêm de outras pessoas trans. Eu não sei porquê, e gostaria que isto não acontecesse. Nós todxs partilhamos a mesma luta.

Vamos nos respeitar e às nossas identidades.
Parem de querer discutir a minha identidade. Sou só eu.

 Kay Cairns is a tenacious award-winning young journalist with deep experience reporting on issues impacting marginalised communities. Kay writes for the Irish Independent, Irish Examiner, Sunday Business Post, The Advocate and Gay Community News writing on news and current affairs, mental health, travel and LGBTI politics.

I’m getting really frustrated at having to explain and defend my gender identity to the world. And that frustration is going to come out in this post.

I’m a demiguy and non binary. This means I don’t identify as a man, and don’t identify as a woman. I express myself in a typically masculine way – I wear shirts and ties, trousers and brogues. I go to a barbers, I have a short back and sides.

These are all stereotypical ways of explaining gender identity, but because this is the way society explains gender, this is what I’m giving you. For the record, I also like marshmallow scented candles and painting my nails on occasion.

At this point you might be thinking – why don’t you just identify as male or female? If everything is stereotypes, then surely you might as well pick a side and break down the expectations of what it is to be male or female.

Sure, I could. But I don’t feel comfortable under either label. If it were up to me, there would be no male or female label at all. But of course that’s not fair either, for the people who identify with those labels.

I often get into debates with people online. They’re upset that I have such a narrow identity, that I’ve carved such a small box for myself. That by carving such a small box for myself, that I restrict what it is to be a man or a woman in the first place. That by me identifying as a demiguy, I’m – in the long run – creating a situation by which everyone who doesn’t fit 100% into the stereotypes of being a man or a woman will need their own label. Again, in that case, lets get rid of labels entirely. Why even have the labels man and woman if they’re not working for us. They’re certainly not working for me.

These labels have their uses though.

My label, my identity, can act as coordinates. As I said, I’m a demiguy non binary person. I can use those terms, those coordinates, to find people who identify similarly to me, have similar experiences and needs.

I use ‘they’ pronouns, much like a lot of other non binary people. I want to take a low dose of testosterone to change my voice, much like a lot of other demiguys. My experiences are unique, but just common enough that with the use of a label, or a little box, I can find others who identify like me and have similar experiences. I can google ‘demiguy’ and find a Facebook group with others talking about struggles I identify with and sharing resources I need. This is the power of the little box.

In a way, it’s equitable to how a trans man would use the term ‘trans man’ instead of simply ‘man’. It allows him to search online for other trans men, and talk to them about finding surgery or hormones, coming out, or a whole host of other things he needs.

Or a trans woman, who uses her term to find other trans women who share her experience. She might find a support group online for trans women, which allows her to talk, get access to surgery and hormones.

As trans people, we have similar experiences in this regard. We’re searching for others like us.

Although, unfortunately, all the attacks against my identity that I get are from other trans people. I don’t know why, and I wish it didn’t happen. We all experience a similar struggle.

Lets respect each other and our identities. Stop putting my identity up for debate. It’s not up for debate. It’s just me.

 

 

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IDENTIDADES

One Comment

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  1. Thanks for sharing your reality Kay. It’s really important that people stop judging – essencially in the trans comunity – as you said, I don’t understand either why some attacks come from that specific comunity, also why people are always saying that we’re in a box when (in my humble opinion) they’re in a box actually, keeping themselves inside a “structure” called gender. Or gender binary system. But we (LGBTQIA+) understand that, we wish that all humans could be comfortable/safe in their identities, no matter what it is. What we want is a place in the world, even if that place isn’t the “usual” (I hate to use that expression…) but exists. And has to be respected and protected WE EXIST. Deal with it.

    I’m glad you joined API. Hope we can meet someday and share a lot more.
    Once more, thanks.

    Dinis.

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